Minhas melhores recordações da infância são musicais: as músicas que meus pais ouviam quando eu tinha 4, 5 anos talvez. Djavan, Ivan Lins, Milton Nascimento, Guilherme Arantes, Roupa Nova, Flávio Venturini... Mais tarde seria Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Gal Costa, ...
É uma coisa tão forte que carrego até hoje: enquanto minhas amigas escutam Jovem Pan, Transamérica e Metropolitana, eu passeio pela Alfa FM, Antena 1, Rádio Sucesso, a antiga Rádio Cidade, lembram? - essa só à noite - Love Songs antes de dormir.
A verdade é que a música sempre teve papel importante na minha vida, principalmente na formação da minha memória. Tem gente que tem memória visual, memória olfativa... eu não. Eu tenho memória musical! Sempre lembro qual era a música que estava tocando - ou a que eu gostaria que tivesse tocado - nesse ou naquele momento. E não é para menos: eu ouço música tanto quanto posso: enquanto troco de roupa, no trânsito, adormeço ouvindo música (Love Songs, como já confessei!), amo dançar. Quando não tinha som no carro, cantava Djavam (Pérola, para ser mais exata), do banco para a faculdade, da faculdade para casa.
Gosto tanto de música que acho a coisa mais sem graça do mundo a vida da gente não ter trilha sonora. Por exemplo, quando vi o mar de Cayman pela primeira vez fiquei paralisada, boquiaberta. O que faltou? "Foi assim / como ver o mar / foi a primeira vez / Que eu vi o mar". Existem músicas que simplemente foram feitas para aquele momento da sua vida.
Quando se apaixona: "Por ser exato o amor não cabe em si / por ser encantado o amor revela-se / por ser amor invade e fim";
Quando perde o amor da sua vida: "Você me entorpeceu / e desapareceu / vou ficando sem ar / o mundo me esqueceu / meu sol escureceu / vou ficando sem ar / esperando você voltar";
Quando termina a faculdade: "If I could reach, higher / just for one moment touch the sky / from that one moment / in my life" e "Amigos para sempre";
Quando tá triste: qualquer uma de Adriana Calcanhoto;
Quando não quer dormir no volante: Shakira, com a janela do carro aberta;
Quando tá se arrumando prá balada "Say it right";
40 anos, casado, filhos pequenos, workaholic: "Devia ter amado mais /Ter chorado mais / Ter visto o sol nascer / Devia ter arriscado maisAté errado mais / Ter feito o que eu queria fazer";
Dor-de-cotovelo 'blaster', versão contemporânea: "Eu sei / tudo pode acontecer / Eu sei / nosso amor não vai morrer / Vou pedir, aos céus / você aqui comigo / Vou jogar, no mar / flores pra te encontrar".
Música, acima de tudo, emociona.
Creio que quando o I-Pod foi inventado, chegamos muito perto de corrigir esse "esquecimento" bobo de Deus, de colocar música em nossas vidas, permitindo que cada um de nós tenha sua própria trilha sonora, todos os dias, em todos os lugares. Antes do I-Pod, jamais poderia caminhar na praia, fim de tarde, pé na areia, cabelo ao vento, sol batendo no rosto ... "E antes que aumente a dor / Esqueça tudo o que passou / Pra nunca mais / O tempo vai reconstruir / Os pedaços que perdi / Pra nunca mais".