Não foi a primeira e, infelizmente, creio que não tenha sido a última vez que meu coração veio na boca por conta de uma presença estranha na janela do meu carro:
- Melhor eu pedir R$ 5,00 pra Sra. prá comprar fralda prá minha filha do que estourar seu vidro, não acha?
Durante o feriado foi uma moça no mercado que, toda suja e decabelada, arrastando uma criancinha igualmente suja, carregando alguns danones, salgadinhos e uma bandeja de mortadela na mão, pedia para que eu pagasse as coisas que ela queria levar.
Semana passada, na feira, foi uma senhora que me pediu a lata de Coca-Cola, de preferência com um pouquinho do refrigerante para ela beber.
Em todas as esquinas da cidade temos homens, mulheres, crianças, velhinhos e velhinhas pedindo dinheiro para comida, bebida, remédios, leite do neném, fralda. Dinheiro para cegos, deficientes, HIV positivos.
As mazelas são inúmeras, o sofrimento, sem fim.
Eu sempre me senti mal. Penso sempre nos mil pares de sapatos que comprei, nas baladas que fiz, nos exageros que cometi para, exatamente naquele momento, não poder ajudar a criancinha, o velhinho, a moça do mercado.
Claro que eu estudei muito e trabalho demais prá bancar meus exageros, mas o caso é que eu tive oportunidade. E se não tivesse tido?
O caso é que a resposta para o que vivemos hoje no país não está na ponta da língua. De quem é a responsabilidade? Minha? Sua? Do governo?
Quem é que pode responder? Eu certamente não posso.
A única coisa que sei é que cansei de viver com medo, com remorso.
- Melhor eu pedir R$ 5,00 pra Sra. prá comprar fralda prá minha filha do que estourar seu vidro, não acha?
Durante o feriado foi uma moça no mercado que, toda suja e decabelada, arrastando uma criancinha igualmente suja, carregando alguns danones, salgadinhos e uma bandeja de mortadela na mão, pedia para que eu pagasse as coisas que ela queria levar.
Semana passada, na feira, foi uma senhora que me pediu a lata de Coca-Cola, de preferência com um pouquinho do refrigerante para ela beber.
Em todas as esquinas da cidade temos homens, mulheres, crianças, velhinhos e velhinhas pedindo dinheiro para comida, bebida, remédios, leite do neném, fralda. Dinheiro para cegos, deficientes, HIV positivos.
As mazelas são inúmeras, o sofrimento, sem fim.
Eu sempre me senti mal. Penso sempre nos mil pares de sapatos que comprei, nas baladas que fiz, nos exageros que cometi para, exatamente naquele momento, não poder ajudar a criancinha, o velhinho, a moça do mercado.
Claro que eu estudei muito e trabalho demais prá bancar meus exageros, mas o caso é que eu tive oportunidade. E se não tivesse tido?
O caso é que a resposta para o que vivemos hoje no país não está na ponta da língua. De quem é a responsabilidade? Minha? Sua? Do governo?
Quem é que pode responder? Eu certamente não posso.
A única coisa que sei é que cansei de viver com medo, com remorso.
Eu estudei, me esforcei, trabalhei, fiz por mim, pela família, pelos amigos e, ainda assim, não basta. Tenho que conviver com a falência da nação todo santo dia, em cada esquina desta cidade. É um fracasso coletivo, eu sei, mas certamente tenho que carregar minha parcela de culpa.
Há algum tempo, parada no cruzamento da Bandeirantes com a Funchal, num dia muito, muito ensolarado, vi um bebê no colo de uma mulher que devia ser sua mãe. Um bebê magrinho, mas tão magrinho... os bracinhos, as perninhas tão fininhas. Me bateu um desespero.
Por pouco não desço do carro e pego a criança prá mim aos gritos. Fiquei doida, queria levar aquele bebê dali de qualquer jeito. Mas não levei.
Carrego comigo essa culpa. Onde estará meu bebezinho?
Há algum tempo, parada no cruzamento da Bandeirantes com a Funchal, num dia muito, muito ensolarado, vi um bebê no colo de uma mulher que devia ser sua mãe. Um bebê magrinho, mas tão magrinho... os bracinhos, as perninhas tão fininhas. Me bateu um desespero.
Por pouco não desço do carro e pego a criança prá mim aos gritos. Fiquei doida, queria levar aquele bebê dali de qualquer jeito. Mas não levei.
Carrego comigo essa culpa. Onde estará meu bebezinho?
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
(Caetano Veloso)
