quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Tristeza não tem fim. Felicidade sim.

Não foi a primeira e, infelizmente, creio que não tenha sido a última vez que meu coração veio na boca por conta de uma presença estranha na janela do meu carro:
- Melhor eu pedir R$ 5,00 pra Sra. prá comprar fralda prá minha filha do que estourar seu vidro, não acha?
Durante o feriado foi uma moça no mercado que, toda suja e decabelada, arrastando uma criancinha igualmente suja, carregando alguns danones, salgadinhos e uma bandeja de mortadela na mão, pedia para que eu pagasse as coisas que ela queria levar.
Semana passada, na feira, foi uma senhora que me pediu a lata de Coca-Cola, de preferência com um pouquinho do refrigerante para ela beber.
Em todas as esquinas da cidade temos homens, mulheres, crianças, velhinhos e velhinhas pedindo dinheiro para comida, bebida, remédios, leite do neném, fralda. Dinheiro para cegos, deficientes, HIV positivos.
As mazelas são inúmeras, o sofrimento, sem fim.
Eu sempre me senti mal. Penso sempre nos mil pares de sapatos que comprei, nas baladas que fiz, nos exageros que cometi para, exatamente naquele momento, não poder ajudar a criancinha, o velhinho, a moça do mercado.
Claro que eu estudei muito e trabalho demais prá bancar meus exageros, mas o caso é que eu tive oportunidade. E se não tivesse tido?
O caso é que a resposta para o que vivemos hoje no país não está na ponta da língua. De quem é a responsabilidade? Minha? Sua? Do governo?
Quem é que pode responder? Eu certamente não posso.
A única coisa que sei é que cansei de viver com medo, com remorso.
Eu estudei, me esforcei, trabalhei, fiz por mim, pela família, pelos amigos e, ainda assim, não basta. Tenho que conviver com a falência da nação todo santo dia, em cada esquina desta cidade. É um fracasso coletivo, eu sei, mas certamente tenho que carregar minha parcela de culpa.
Há algum tempo, parada no cruzamento da Bandeirantes com a Funchal, num dia muito, muito ensolarado, vi um bebê no colo de uma mulher que devia ser sua mãe. Um bebê magrinho, mas tão magrinho... os bracinhos, as perninhas tão fininhas. Me bateu um desespero.
Por pouco não desço do carro e pego a criança prá mim aos gritos. Fiquei doida, queria levar aquele bebê dali de qualquer jeito. Mas não levei.
Carrego comigo essa culpa. Onde estará meu bebezinho?


O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
(Caetano Veloso)

2 comentários:

Anônimo disse...

Vivemos uma quadra de escassa compaixão e baixo quociente de inteligência. A capacidade de mudança está em xeque, e neste pântano a questão moral afunda, à tona sobram apenas as bolhas do desastre, a desgraça cotidiana acaba por alastrar-se como mancha de óleo. E há ainda a colaboração de figuras graúdas e arrivistas, sempre inclinadas a envergonhar o Brasil. Parafraseando respectivamente, o economista Carlos Lessa e Mino Carta, jornalista e escritor: "...o caos, não é o aéreo, é o generalizado, em todos aspectos públicos e privados" , "...Algo é certo, a Máfia é mais competente e menos hipócrita."

Anônimo disse...

Pois é Cami, por isso é que fizeram o famoso ditado: nós somos brasileiros e não desistimos nunca!
A esperança é um sentimento distante, mas não pode morrer...tem que existir dentro de cada um de nós, mesmo que pequenininha.
Quanto ao neném, adota vai. Nós podemos criar ele juntas...rs, rs, rs...
Beijos saudosos!!!