domingo, 29 de abril de 2007

Nunca é tarde demais


No dia em que saí de lá, surpreendentemente, chovia. Não havia um raio de Sol no céu. Ventava. Quase fazia frio.
Andei descalça na praia. Deixei a água do mar molhar meus pés. Deixei as lágrimas escorrerem pelo rosto e quando começou a garoar eu percebi que a ilha também se despedia de mim chorando. Foi assim, com um misto de alívio e muita dor que eu deixei o paraíso chamado Cayman prá trás.
Muitas pessoas me perguntaram o que, exatamente, Cayman tinha de especial. Para algumas eu disse a verdade, para outras, disse que havia encontrado o paraíso.
A verdade é que Cayman foi um alento pro meu coração machucado, prá minha alma ferida. Foi naquela ilha pequena e distante de tudo que eu redescobri os benefícios da solidão e a importância da lealdade acima de todo o resto. Ganhei uma irmã e um melhor amigo.
Quando eu cheguei lá, tinha acabado de fechar uma porta muito importante atrás de mim, tinha dado um passo importante rumo ao que eu seria para sempre: uma mulher firme. Tinha soltado amarras muito antigas, estava amadurecendo.
Tudo lá era novo, diferente. Eu não conhecia absolutamente ninguém e ninguém me conhecia. Lá, e somente lá, naquele momento, eu não tinha passado. Eu podia ser o que eu quisesse, sem o peso do que eu sempre fui. Ninguém conhecia meus erros. Só eu mesma.
Eu trabalhei sozinha, morei sozinha, sofri sozinha, fui feliz sozinha. Fui tudo o que eu podia ser. Fui uma pessoa melhor.
Quando entrei dentro daquele avião, correndo, atrasada... eu sabia que estava me perdendo de mim outra vez.
Chorei demais e acho que choro até hoje. E continuo me procurando.


"E antes que aumente a dor

Esqueça tudo o que passou

Pra nunca mais

O tempo vai reconstruir

Os pedaços que perdi

Pra nunca mais"
Tarde Demais (LS Jack - Composição: Marquinhus e Morel)

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Assim

Amanhã não se sabe (Sérgio Britto)

Como as folhas, com o vento

Até onde vai dar o firmamento

Toda hora, enquanto é tempo

Vivo aqui, este momento

Hoje aqui, amanhã não se sabe

Vivo agora antes que o dia acabe

Este instante nunca é tarde

Mal começou, e eu já estou com saudades

Me abraça, me aceita

Me aceita assim meu amor

Me abraça, me beija

Me aceita assim como eu sou

E deixa ser o que for

Como as ondas, com a maré

Até onde não vai dar mais pé

Este instante tal qual é

Vivo aqui e, seja o que deus quiser

Hoje aqui não importa pra onde vamos

Vivo agora, não tenho outros planos

E é tão fácil viver sonhando

Enquanto isso, a vida vai passando

Me abraça, me aceita

Me aceita assim meu amor

Me abraça, me beija

Me aceita assim como eu sou

E deixa ser o que for

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Vila Gilda - Parte I


Algumas mudanças na rotina da família me obrigaram a pegar o busão de quinta-feira, dia do rodízio do meu carro. Uma coisa é certa: pakita andando de bumba não dá certo. Não é bom prá ninguém: nem prá pakita, que desconhece as regras do cotidiano dos populares e nem para os populares, que são obrigados à tolerar um ser estranho entre eles. Ou seja: ninguém sai ganhando.
Algumas semanas atrás, atingi a face de uma popular com a minha bolsa. Antes que a mulher me agredisse - com toda razão - eu me ajoelhei aos pés dela e implorei perdão. Ela compreendeu.
Em seguida, quase derrubei todos os iogurtes da sacolinha da marmita. Sacolinha de papel, que obviamente estava rasgando, já que o iogurte suaaaaaava, naquele calor infernal de 30ºC que eu enfrentava, às 8h30 da manhã dentro do ônibus, no nosso país tropical.
Tudo bem, calma, respira, arruma a franja e desce do ônibus - ou "pula" como diz uma amiga minha, que eu jurava que não tinha carro por um equívico do destino. Mas depois do "pula", ah, não sei não...
Em suma, as primeiras regras assimiladas na tenra viagem:

1- No verão, sem chance da escova sobreviver - prenda a franja e solte dentro do escritório (ar condicionado é tudo!);
2- Itens gelados suam - ou você leva em uma sacola de pano, ou NÃO LEVA os malditos iogurtes;
3- Salto alto é proibido - em dia de rodízio você tem duas opções: ou vai de rasteirinha até o escritório e lá você saca o sapato maravilhoso ou simplesmente aceita que neste dia da semana você vai usar o sapatinho-baixinho-sem gracinha - e não vai emendar a balada!;
4- Observe sempre!E tome cuidado para não destoar muito da multidão - os populares odeiam as pakitas insanas dentro do ônibus, afinal, elas sequer deveriam estar lá.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

A máscara

Às vezes me olho no espelho e quase não me reconheço: sou uma mulher presa no corpo, ou melhor, no rosto de uma menina. E sim, quando eu passo blush, fico com cara de boneca. Se passar rímel nos cílios, então, acabou! Se deixar o cabelo crescer, ele faz cachos... angelicais.
O meu rosto delicadinho em nada expressa a agressividade impetuosa da minha alma.
O auge foi quando, aos 24 anos, a mulher da bilheteria do cinema me pediu um "documento de identidade, por favor??" quando eu tentei comprar os ingressos para um filme para maiores de 18 anos. Bom, eu agradeci gentilmente o elogio e saquei da bolsa minha maior arma - obviamente depois da Carteira de Habilitação - a carteirinha da OAB.
Bem antes disso, aos 20, mais ou menos, um senhorinha beeeeeem vovozinha, amiga da minha mãe, me perguntou se eu era "coleguinha" da filha da Fulana que, por sinal, tinha 13 anos na época. Ah, va...
O caso é que, aos 22 anos, eu já era advogada formada, recém aprovada no exame da OAB e aparentava o que, uns 17, 18 anos de idade???
Depois dos trajes forenses e do cartão e crédito, devo admitir que as coisas melhoraram ou pouco, especialmente em lojas de shopping - após o expediente, obviamente, quando ainda estou "fantasiada" - e em restaurantes - onde ainda sofro graves retaliações aos fins de semana. Definitivamente, ninguém me leva à sério.
A minha pergunta, enfim, é: como uma pessoa pode ser por fora, tudo aquilo que não é por dentro?
Como diz minha mãe: "Deus sabe o que faz, minha filha".
Ele deve saber mesmo.

terça-feira, 24 de abril de 2007

A Faxina

Sempre foi meu lema de vida: se você está inclinada a dar cabo da própria vida, CORTE O CABELO.
Hoje mesmo eu cortei o cabelo, fiz pé e mão e ainda mandei lavar o carro.
Isso é o que eu chamo de lutar pela vida.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Eu confesso


A solidão que se abate sobre mim
Hoje, me abate
Caminho sozinha há tanto tempo
Que achei que já havia me acostumado
Mas essa insana solidão que se abate sobre mim
e sobre o mundo inteiro
Hoje, e só hoje
Me abate

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Respeitável Público - Parte IV

E então, estava armada a confusão! Pela primeira vez eu tinha me apaixonado por alguma coisa: O CIRCO!
Foi uma descoberta absolutamente pessoal, íntima. Eu cruzei uma barreira interna - a da indiferença por todas as coisas do mundo.
Quando me dei conta, vi que eu respirava o circo. Era para ir à aula que eu dormia e acordava todos os dias. Durou 04 meses.
Vai durar para o resto da vida.
Eu não me canso de repetir: o circo mudou a minha vida. Hoje eu sei que há algo no mundo que faz meu coração palpitar e, por isso, posso afirmar que sou mais FELIZ.
Era todo um novo mundo diante de meus olhinhos ainda incrédulos.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

O pedido

Ela é como uma irmã e, a mãe dela, como uma mãe. Minto: ela é minha irmã e, a mãe dela é, sim, minha mãe.
Há alguns anos fiquei chocada quando ela me ligou dizendo que já tinha carta, já tinha um carro!
Quando minha mãe fez 50 anos, ela reencontrou meus avós e, aos prantos, disse:
- Olha como eu cresci, tenho até namorado!!!
Pois é, até namorado ela tinha... E agora, minha irmãzinha vai casar com o namorado.
Fiquei feliz, tenho certeza que ela fez a escolha certa.
Mulher de sorte.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Respeitável Público - Parte III



Os acontecimentos que se seguiram foram, para dizer o mínimo, espantosos. A cada aula superada, minha paixão crescia.
Eram malabares, acrobacias, trapézios, liras, tecidos, cama-elástica. Inúmeras atividades, tudo era novidade e... infinitamente dolorido! Até que ouvi de uma das minhas professoras algo que eu nunca vou esquecer, pela força que as palavras tiveram naquele momento:
- Tudo no circo dói.
E doía mesmo.
Como é que alguém pode se apaixonar por uma coisa que dói tanto? Como alguém pode viver disso? Só eu sei como. É apaixonante. Um verdadeiro universo paralelo, quase uma utopia!
E mais: dentro do Galpão, eu tive a oportunidade de ser algo que eu jamais havia experimentado, em 27 anos (agora completos!) de vida: eu era o lado fraco da corda! Tudo era difícil: a cambalhota, a parada de mão, o acrobalance, o trapézio, a CAMA-ELÁSTICA era difícil!
Mas cada superação, cada movimento completo era uma vitória minha, da turma e do professor. Todos vibravam juntos. Eu era aplaudida - literalmente - a cada vitória.
Ninguém desistiu de mim, nem mesmo eu me abandonei...
Um novo mundo se abrira diante de meus olhos.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Respeitável Público - Parte I



O circo entrou na minha vida como um sopro de alegria, muito sem querer.
Na busca eterna de uma atividade física que me fosse prazerosa, acabei cruzando a portinhola de entrada do Galpão do Circo na Vila Madalena, acompanhada de uma amiga que jamais frequentou uma aula sequer.
À primeira vista, achei tudo aquilo muito "alternativo" para caber na minha rotina regrada. Saí de lá decidida a não voltar. Mas pensei muito no caminho - o trânsito paulistano foi de grande
valia na minha decisão - mais uma vez a pergunta era uma só: o que teria eu a perder? Vou tentar então.
Quando entrei pela porta do Galpão, uma semana depois de tomada a decisão, de
mala pendurada no ombro, do alto da minha fantasia de advogadinha bem sucedida e do meu salto sempre impecável, me senti um verdadeiro Alien. Jamais fui destratada, mas ninguém entendia o que eu estava fazendo ali. Acho que nem eu, à princípio.
Entretanto, devo dizer que foi paixão à primeira vista: eu simplesmente me encontrei. Encontrei a menininha que abandonou o balé, a moça que poderia ter sido atriz, a modelo que não aconteceu. Encontrei um mundo de arte, de paixão, de gente que ama o que faz e acho que foi exatamente isso o que me encantou e, pior: que me surpreendeu.
Um novo mundo se abria diante de meus olhos.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Cartas na Mesa


Entrei 2007 um pouco apática e sem muitas expectativas. A situação era tão delicada que, baseada na inércia da minha vida amorosa e no marasmo do resto dos aspectos da minha vida, resolvi consultar uma cartomante. Sim, uma cartomante! É realmente inacreditável que eu - euzinha! - estivesse disposta à tamanho despaltério, mas... Lá fui eu: munida de uma amiga e um bloquinho de anotações. O que é que eu tinha à perder - além da minha reputação cética?
No dia e hora marcada, sentada no sofá da casa da cartomante, eu tentava ponderar a insanidade prestes a ser cometida: o que é que tem de mal, afinal? O que uma Senhora de fala mansa e risada gostosa poderia dizer que eu já não soubesse, não é mesmo???
Pois disse muito. Saí de lá chocada, com um misto de espanto e esperança na cabeça e no coração. Será mesmo possível?
Começava ali o meu tão esperado 2007.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

A Cruz e a Espada (Paulo Ricardo / Luiz Schiavon)


Havia um tempo em que eu vivia
Um sentimento quase infantil
Havia o medo e a timidez
Todo um lado que você nunca viu

E agora eu vejo, aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim

E agora eu ando correndo tanto
Procurando aquele novo lugar
Aquela festa
O que me resta
Encontrar alguém legal pra ficar

E agora eu vejo
Aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim (2X)

E agora é tarde
Acordo tarde
Do meu lado alguém
Que eu nem conhecia
Outra criança adulterada
Pelos anos que a pintura escondia

Agora eu vejo
Aquele beijo era o fim, o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim (2X)

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Pensamento do Dia


No país do turismo sexual, nada como uma sexológa como Ministra do Turismo