quinta-feira, 24 de maio de 2007

Copo D´Água

Às vésperas de completar seus temidos 30 anos, ela dispara, em meio à uma conversa, aparentemente, inofensiva:
- Olha, é muito simples: você tá no deserto, morrendo de fome e de sede. Aí vem alguém e te oferece um copo d´água. Você aceita ou não aceita???
Fiquei ali parada, olhando prá ela, tentando adivinhar onde aquilo tudo ía dar. Ela continuou:
- Tem que aceitar, pô... não é exatamente o que você precisa, mas pode ser ABSOLUTAMENTE TUDO o que aquela pessoa pode te oferecer naquele momento. Não é verdade?
- É...
Tenho pena daqueles que cruzarem os meus caminhos pelo deserto: ando com um conta-gotas no bolso. E é realmente tudo o que eu tenho prá dar: uma gota d´água.
Houve época em que dei um oceano inteiro.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Crimes & Pecados

Católica por batismo e cética por opção (ou falta de), inspirada na visita do Papa ao Brasil, resolvi investigar se é possível, nos dias de hoje, viver em conformidade com os ditames básicos da Igreja Católica.
Surpresa! Descobri que alguns dos mandamentos são também, vejam só: CRIMES, previstos no Código Penal, objeto de meu estudo por anos e anos, não só na faculdade, mas junto ao Ministério Público, onde estagiei por algum tempo.
Assim, herege confessa e ex-amante do Direito Penal, acredito ter escolhido o tema religioso que, até a presente data, mais se aproximou da minha fé.
Seguem meus comentários acerca dos mandamentos que, pelo menos em tese, deveriam reger nossas vidas católicas:

1- Não terás outro deus diante de mim (...) - Começamos mal: este mandamento, por exemplo, não é crime! E vejam só: é muito possível que seja respeitado, sim. Forçando a amizade poderíamos tentar encaixar em cerceamento da liberdade de expressão, mas acho que não cola, não. É egoísmo, no máximo.

2- Não farás para ti imagem de escultura representando o que quer que seja do que está em cima no céu, ou embaixo na terra (...) - Não acredito que tenha profundas implicações no cotidiano dos fiéis e também não é crime! Tal diretriz católica pode ser cumprida sem problemas, muito embora haja quem diga que nem mesmo os santos poderiam ser representados por imagens. Se nem eles se entendem, quem sou eu para dizer alguma coisa.

3- Não pronunciarás em vão o nome do Senhor (...) - Esse aqui é, com certeza o mandamento mais violado de todos - eu mesma, por exemplo, diante da mais ínfima dificuldade, encho o peito e brado: "AI, PELO AMOR DE DEUS!!!!" - é incontrolável, sai sem querer. E quando a apelação não sai diretamente para o Divino (como diz uma amiga que não é católica, mas é muito religiosa), sai para o "enviado" do mesmo: "AI! JESUS ME ABANA!"

4- Guardarás o dia do sábado e o santificarás, como te ordenou o Senhor, teu Deus. Trabalharás seis dias e neles farás todas as tuas obras; mas no sétimo dia, que é o repouso do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu boi, nem teu jumento, nem teus animais, nem o estrangeiro que vive dentro de teus muros, para que o teu escravo e a tua serva descansem como tu - Aqui já encontramos um exagero - comprometer-se é uma coisa, outra é prometer pela família inteira, os animais, os estrangeiros, os ... escravos? Aqui temos crime sim. Pessoal, escravo não pode!!!! De qualquer forma, aproveito para fazer aqui, uma ressalva SOCIAL: hoje em dia, prometer não trabalhar, em qualquer dia ou horário e por qualquer razão (religiosa ou não tão nobre), num país em que o índice de desemprego vai à alturas, é um perigo! Vai por mim, o espertinho acaba é perdendo o emprego.

5- Honra teu pai e tua mãe, como te mandou o Senhor - Esse aqui até quem não é católico ou se diz herege - como eu - cumpre, isso eu devo admitir. Somente o pior dos seres realmente é capaz de desonrar pai e mãe - não que não exista, mas convenhamos, até bandido perigoso chora quando fala na mamãe.

6- Não matarás - Sem chance. Esse aqui só vale fora dos Gardens (Miriam´s Garden, Angela´s Garden, ...) e ainda assim, vira e mexe a classe média se vê envolvida com garotos que matam suas avós, estudantes de direito que matam seus pais - dormindo, na cama, dentro de casa. Esse aqui caiu em desuso e rompeu a barreira do razoável. No Brasil, mata-se por uma infinidade de causas: dinheiro, trabalho, jogo, amor. É caso de polícia mesmo. E no Código Penal, tal mandamento está contemplado no art. 121.

7- Não cometerás adultério - Dispensa comentários. Adultério é o que mais se vê nesse mundo, concorrendo diretamente - em matéria de mandamento menos popular - com o mandamento de n. 6. E agora que este ex-crime foi escorraçado do Código Penal, juntamente com o conceito de "mulher honesta" - SOCORRO! Amarrem seus maridos e esposas no pé da cama, que a situação dos relacionnamento amorosos, hoje em dia, beira ao caos.

8- Não furtarás - Esse aqui não é mandamento coisa nenhuma - é lei e ponto final. Malandro pode se informar melhor sobre isso no Código Penal, Art. 155. Se não cumprir, vai se entender é com a polícia, mesmo. Sem choro nem vela. A única ressalva jurídica aqui é que o roubo, muito mais violento do que o furto, não foi contemplado pelo "Todo-Poderoso". No mínimo, esquisito.

9- Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo
- Esse aqui também é crime (art. 342 do Código Penal), mas o que não falta é criatura tirando do seu prá botar no do outro, é ou não é?? Todo mundo aqui já se viu numa situação em que se não mata, morre - ou seja, cá estamos nós, cidadãos de bem, violando o mandamento de n. 6 novamente.

10- Não cobiçarás a mulher de teu próximo - Aqui, vamos ser honestos - estamos diante de um exagero de moralidade, um excesso de zêlo, eu diria. Pessoal, vamos lá: não pode consumar (mandamento n. 7) e sequer, cogitar (mandamento n. 10)????? Complicado, hein? Nem mesmo o ordenamento jurídico vigente no país, pune a fase de "cogitação" no 'iter criminis'. Meu irmão diria: "Ameniza, vai!!!!"

Enfim, o caso é que, hoje em dia, quem manda nessa baderna é a polícia mesmo - ou deveria ser. Malandro, quando tem medo, é da polícia e do xilindró. E nada de temer "arder no fogo do inferno"...
Pecado mesmo, só jogar comida fora.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

O munda dá voltas...

Eu sempre fui a candidata número 1 ao sucesso dentre todas as criancinhas que brincavam no parquinho.
Com 4 anos, aproximadamente, subindo a escada rolante do shopping, balbuciei, para orgulho do papai e da mamãe: bra-si-li-a! Nada mal, não?
Loirinha, magricela e muito, muito obediente, sempre encabecei a lista dos CDFs, os preferidos dos professores. Era um pouco antipática - sempre fui meio mal-humorada - e demasiadamente séria e responsável.
A verdade é que eu já nasci com 10 anos, nunca fui criança. E depois da morte do meu pai, então, nunca mais pude vacilar, razão pela qual cometi alguns erros dos quais me arrependo, sim, senhor!
Mas vá lá. Tá bom.
O fato é que me formei, fui contratada para trabalhar em um grande banco brasileiro, em uma área bem cobiçada e... só. Mudei de emprego quando cansei do banco e... é isso.
E as grandes realizações? O carro do ano? O apartamento prá morar sozinha? O namorado? A viagem prá Europa?
Bom, as cortinas ainda não se fecharam, então, o espetáculo ainda não terminou.



O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar distraído

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar

Epitáfio (Titãs - Composição: Sérgio Britto)

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Vila Gilda - Parte II

Quinta-feira, 7 e 15 da manhã.
Anda, anda, anda até o metrô, desce na Ana Rosa e pega o que? O Vila Gilda.
Dessa vez, muito bem acompanhada, de alguém que sempre viveu na berlinda, entre o mundo dos manos do skate e o meu mundo (que com certeza não é o do skate!). Alguém que não dirige por opção e nunca teve um carro: meu irmãozinho mais novo.
A primeira vez em que ele me acompanhou nessa empreitada, há muito tempo atrás, se viu obrigado a salvar o sapato que vôou do meu pé quando eu tentei subir no ônibus. Ele sofre, mas ter irmã pakita é isso.
Em suma, quando não anda de carona comigo, ele vive dentro do bumba. E quando sou eu que pego carona no Vila Gilda, é ele quem paga minha passagem com o "bilete único". Loucura, é quase um popular, não fosse sua origem de classe média que já foi alta.
Bom, é o seguinte: entra no ônibus, passa a catraca, escolhe o assento (olha só que sucesso!). Sentam atrás de nós "os mano". Sim, dois deles. Um deles saca o celular (que só não é melhor que o meu porque ganhei um baludo do meu irmão no Natal) e coloca uma música prá tocar no viva voz. Pois é, são 15 para as 8 da manhã e você tem que ouvir o som que o mano quer. Ok, quem sou eu para interferir nessa singela rotina que aliás, nem é minha.
Não contentes em obrigar o ônibus inteiro a ouvir a música que eles escolheram, começaram a falar atrocidades sobre as bandas em questão - só sei disso porque meu irmão, especialista musical, começou a bufar do meu lado e sacudir a cabeça. Ai, meu Deus, isso não vai dar certo. Já tô tensa.
Bom, depois da segunda música, o infeliz desliga e sossega. Pronto, podemos seguir viagem em silêncio, certo? Não, claro que não.
É neste ponto da viagem que começam as histórias escabrosas, que só uma pessoa cuja rotina consiste em se locomover dentro do Vila Gildão tem o privilégio de presenciar:
- "Mano", desacreditei daquilo. O "nego" tomou 5 tiros no peito e ainda saiu nadando, "véio"!!!!
Meu Deus, quem não acreditava mais naquilo era eu. Que raio de história era aquela? Com certeza se passou na Vila Brasilândia, ou em algum "garden" como diz minha cunhada: Miriam´s Garden ou Ângela´s Garden maybe.
O auge se deu quando um mocinho na minha frente começou a se sacudir todo, ouvindo um MP3 player num volume desesperador e o "mano", que não deixava passar uma, solta essa:
- "Mano", que que é isso! Olha a altura que o "maluco" ta ouvindo a parada????? Deve tá surdo o filho da puta.
Chega, não dá mais.
"Pulo" (lembram do pulo?) no meu ponto e caminho tranquilamente até o escritório.
Mais uma quinta-feira comum.