quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Johnny Lirol

Ele morava no quinto e eu, no quarto andar. Ele descia de pijamas para copiar minha lição de casa, eu subia de camisola prá conferir e, nessa época, tínhamos nove ou dez anos de idade.
Sempre que penso na minha infância, lá está ele, com aquele sorriso safado.

Todos os dias ele passava na porta de casa, mochila nas costas: íamos juntos pro colégio. Lá, ele falava prá todo mundo que eu era sua irmã.
Foi para ele que eu liguei quando meu pai morreu. Ele desceu correndo e, de dentro do apartamento, eu pude ouvir as portas da escada de incêndio batendo... e ele correndo prá me abraçar. Foi na cama dos pais dele que eu dormi naquela noite.
Eu era a mais CDF da classe, ele, o mais bagunceiro. Eu passava de ano no 3º bimestre, ele ficava de recuperação todo ano. E era comigo que ele estudava pra passar de ano.
Ele andava com os caras mais descolados, ficava com as meninas mais bonitas da escola. Ele era pop, eu não. Ele sempre foi o meu elo com o que eu nunca seria e sempre esteve ao meu lado.

Eu era séria, instrospectiva, ele sempre com um sorrisão estampado na cara. Dizia que seria meu irmão por toda a vida.
Foi num sonho, um dia desses, que eu percebi: ele sempre foi o meu porto seguro, minha referência de proteção.
Ainda que os anos, a distância ou a correria do dia-a-dia tenha nos afastado, pode acreditar, Johnny Lirol: vou te amar para sempre, meu irmão.