quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Johnny Lirol

Ele morava no quinto e eu, no quarto andar. Ele descia de pijamas para copiar minha lição de casa, eu subia de camisola prá conferir e, nessa época, tínhamos nove ou dez anos de idade.
Sempre que penso na minha infância, lá está ele, com aquele sorriso safado.

Todos os dias ele passava na porta de casa, mochila nas costas: íamos juntos pro colégio. Lá, ele falava prá todo mundo que eu era sua irmã.
Foi para ele que eu liguei quando meu pai morreu. Ele desceu correndo e, de dentro do apartamento, eu pude ouvir as portas da escada de incêndio batendo... e ele correndo prá me abraçar. Foi na cama dos pais dele que eu dormi naquela noite.
Eu era a mais CDF da classe, ele, o mais bagunceiro. Eu passava de ano no 3º bimestre, ele ficava de recuperação todo ano. E era comigo que ele estudava pra passar de ano.
Ele andava com os caras mais descolados, ficava com as meninas mais bonitas da escola. Ele era pop, eu não. Ele sempre foi o meu elo com o que eu nunca seria e sempre esteve ao meu lado.

Eu era séria, instrospectiva, ele sempre com um sorrisão estampado na cara. Dizia que seria meu irmão por toda a vida.
Foi num sonho, um dia desses, que eu percebi: ele sempre foi o meu porto seguro, minha referência de proteção.
Ainda que os anos, a distância ou a correria do dia-a-dia tenha nos afastado, pode acreditar, Johnny Lirol: vou te amar para sempre, meu irmão.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Mais uma de tartaruga

Ele diz que é baiano e, realmente, só sendo baiano mesmo.
Estava de férias e resolveu que, com o Sol estalando no côco, em pleno horário do almoço, bem no meio do dia, vestindo bermuda, chinelas e camiseta, dirigindo um carro que não era seu, resgataria sete (sim, sete) tartarugas - ou jabutis - da casa de um parente.
- Vai lá negão! Traz as tartarugas prá cá que estão pintando a casa. As coitadas não podem ficar lá assim... cheiro de tinta e tudo mais. Pega a carripa aí e vai lá resgatar as pobres.
E lá foi ele, contrariando todo o bom senso, fazer o resgate das tartarugas. O que ele decidiu ignorar quando disse que traria as tartarugas foi a Lei 9605/98 - A LEI DOS CRIMES AMBIENTAIS. E Galvão Bueno que me perdoe me apoderar de sua expressão favorita, mas A REGRA É CLARA: O PORTE DE TARTARUGAS É CRIME. Não bastasse ser crime, é ainda, INAFIANÇAVEL. Pelo menos é o que dizem por aí.
Deixa que eu explico: no país tupiniquim ou em terras brasileiras, onde fica o "pulmão do mundo", se estiver carregando arma de fogo - o "treisoitão", saca? - e for surpreendido pelo meganhas, paga fiança e vai chorar na sua cama que é lugar quente. Mas se estiver carregando tartarugas, jabutis e afins, dentro do porta malas do celta que não é seu e que, portanto, você não pode afirmar que está com a documentação em dia - se prepara porque você vai ver o sol nascer quadrado.
E foi assim, na sua baiana inocência, que o negão foi parar numa batida da Polícia Civil, de chinelas havaianas, bermuda e camiseta do timão, meio dia, num Celta cujo licenciamento estava atrasado, com SETE TARTARUGAS ENORMES no porta-malas.
O negão suava, tremia e rezava pois, ao contrário das expectativas, meu caro leitor, nem o desconhecimento da lei a danado podia alegar: ele sabia perfeitamente que no momento em que o porta-malas fosse aberto, não tinha choro nem vela: ELE TAVA ERA FODIDO.
- Carteira de habilitação e documento do carro, por favor.
E lá vai o meganha verificar os documentos apresentados.
- Olha, o carro não está licenciado... não tem jeito, não... vamos ter que estar apreendendo o veículo.
O negão olha, reluta em dizer alguma coisa. Vai falar o que: "leva a porra do carro mas alivia que eu tenho SETE tartarugas no porta-malas???"
- Pega seus pertences e desce do carro. Tem alguma coisa no porta-malas??
PUTAQUEOPARIU! Tem, tem sim, SETE tartarugas.
- Não, nada.
- Pode levar, Amadeu. E você, tá liberado - pode ir buscar seu carro no pátio.
O negão, que só pensava em sair do flagrante da "posse de tartarugas", caminha calma e serenamente até a esquina e, quando percebe que está fora do alcance dos puliça, sai em desabalada carreira e só pára quando arruma um lugar prá se entocar até que o lance todo possa ser resolvido.
Resumo da ópera: um carro - que não era dele, lembra? - e sete tartaruguinhas apreendidas; um susto do caralho; a confirmação de que Deus é brasileiro, É BAIANO SIM, É CORINTHIANO SIM e muito provavelmente, é negro.

(*) Nota da autora: os crimes ambientais não são mais inafiançáveis (
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7223).

domingo, 4 de maio de 2008

Goodbye


What If I wanted to break
Laugh it all off in your face
What would you do
E se eu desmoronar
Se não pudesse mais aguentar
O que você faria
Come break me down
Bury me, bury me
I am finished with you
E se eu quisesse lutar
Pelo resto da vida implorar
O que você faria
You say you wanted more
What are you waiting for
I'm not running from you
Come break me down
Bury me, bury me
I am finished with you
look in my eyes
You're killing me killing me
All I wanted was you
I tried to be someone else
But nothing seemed to change
I know now this is who I really am inside
Finally found myself
Finally for a chance
I know now this is who I really am
Come break me down
Bury me, bury me
I am finished with you
look in my eyes
You're killing me killing me
All I wanted was you
(The Kill - 30 seconds to mars / Pitty)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Rotina - Parte II

Acordou insana naquele dia, possuída:
- Não vou trabalhar hoje, nem a pau!!! - e colocou o despertador para dali vinte minutinhos básicos.
Abriu um único olho e levantou da cama amaldiçoando o momento em que não nasceu em berço de ouro.
- Trabalhar hoje vai ser impossível - pensou lá com seus botões.
Tomou banho com preguiça, muuuito sono. Planejou desmarcar todos os compromissos daquele dia: a depilação na hora do almoço, o happy hour com o amigo querido, sumido há meses. Estava muito cansada... COM SONO!
Pegou o carro, fez o mesmo caminho de sempre, não notou nada de diferente em lugar algum.
Chegou no escritório carregando bolsa, bolsinha, bolsão, casaco, chave, crachá. Largou tudo na cadeira e saiu em busca da copeira:
- Me faz um café. GRANDE. QUE SOOOONO!
Trabalhou o dia todinho sem muitas interrupções; o amigo desmarcou o happy hour aos 45 do segundo tempo.
Desligou o micro e pegou o casaco quando ouviu o celular tocar dentro da bolsa. Viu quem era antes de atender e pensou por um minuto se deveria...
- Alô?? - fingiu ignorar quem ligava.

domingo, 13 de abril de 2008

Quero ser Marin Frist

Fui uma criancinha muito da exibida, minhas ambições sempre envolveram estar em cima de um palco: quis ser bailarina, cantora, modelo, atriz, qualquer coisa em que eu fosse o centro das atenções.
Com o tempo, desenvolvi a timidez: passei a esconder o corpo, o talento, as idéias, os defeitos, as fraquezas, as dores. Hoje, quero ser Marin Frist.
Marin é uma mulher linda e loura, bem sucedida, elegante, independente. Ela escreve livros e artigos; tem um programa no rádio. Morou na cidade grande e foi parar no fim do mundo - literalmente, em uma cidade ridiculamente pequena. Ela é sofisticada. Mora numa casa ma-ra-vi-lho-sa, à beira de um lago igualmente ma-ra-vi-lho-so e, neste exato momento, tem um homem sensacional - e gostoso - apaixonado por ela. Mas é claro que, nem assim, Marin é completamente feliz.
Ainda assim, quero ser Marin Frist.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Rotina - Parte I

Levantou no mesmo horário e, quando saiu da cama naquela manhã ,estava pronta para abraçar o mundo e tudo de bom que a vida podia lhe dar.
Tomou um banho longo, deixou a água lhe correr o corpo, molhar os cabelos sem pressa nenhuma.
Pegou a bolsa de cima da poltrona e saiu agarrando um sanduiche que estava prontinho em cima da mesa.
Foi de carro pelo mesmo caminho de sempre. Parou nos semáforos, fechou as janelas com medo. Estacionou na mesma vaga de todos os dias: S2.
Trabalhou com vontade. Parou por cinco minutos. Depois do almoço, pediu um café... que sono!
Fez hora extra. Normal.
Quando o telefone tocou, atendeu fingindo pra si e para o mundo que não se importava:
- Alô??
Escutou calada, sorriu em silêncio e concordou:
- Te encontro lá em meia hora, pode ser?
Escovou os dentes, arrumou os cabelos e se foi.
Abraçou seu mundo. Seu mundinho de todos os dias.

A descoberta


Uma bactéria totalmente fora do script mudou o destino daquela semana: antibiótico e, portanto, nada, nada de bebida alcoólica.
Justo naquela semana, de intensa atividade social, planejada e inadiável: despedida do meu querido amigo Mineiro Veneno, com a presença implacável e, obviamente, altamente alcoólica dos Canalhas Veneno e, para fechar a temporada do "não ao álcool", formatura da minha querida cunhadinha, Quiança Veneno.
A pergunta ressoava na minha cabeça e, certamente na cabeça dos meus companheiros de copo: será que ela vai conseguir??
A primeira parte da odisséia era, na minha cabeça, a mais difícil, por um motivo muito simples: EU AMO O CHOPP DO JUAREZ!!!!
Tomei suquinho de laranja e fui a piada de todos os companheiros: ninguém estava acreditando naquilo. Muito menos eu.
Resisti bravamente e, conversa vai, conversa vem, fotos do evento, registro do discurso... quando vi, a balada tinha se encerrado e eu lá estava: sóbria e feliz!
Sequer apresentei sintomas de abstinência!
A segunda etapa foi um pouco deprê: evento de família, todos os casais sentados na mesa e eu lá... SOLTEIRA E SÓBRIA. Tava complicado. Eis que, após o cumprimento de todas as formalidades da graduação dos pupilos, entra um trio-elétrico gigantesco na pista, carregando ninguém menos do que Saulo e sua Banda Eva. Pirei! Levantei da mesa e sacudi o esqueleto com gosto!!! Muito da sóbria, diga-se de passagem. Pulei, gritei, me descabelei e quando percebi... lá se fora mais uma puta balada... em que eu fiquei absolutamente sóbria.
Eu sei que para os companheiros do copo isso pode parecer incrível mas eu constatei: é possível se divertir sem amargar as terríveis consequências da ressaca!

segunda-feira, 10 de março de 2008

Tempestade


Sempre fui tempestade.
Fui o poema inteiro, só o refrão, uma estrofe:
Contradição.
Nunca fui nem calmaria, nem prosa: sempre fui gritaria.
Quis ser ilha e, quando fui, quis ser tumulto.
Viver em paz é viver gritando
até perder o folêgo.
Se a vida dá as costas,
esmurra uma parede, grita muito, chora.
Aposta alto e perde feio,
Aposta tudo e ganha o mundo,
Inteiro prá você, do jeitinho que você sempre pediu:
na hora certa, não agora.
Na hora certa.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Presidente


Tortola é realmente um lugar incrível. Onde mais, no mundo, eu fico bêbada com duas long necks???
Quinta-feira de manhã, quando eu saí, a cortina da banheira era bege.
O que ocorre é que, naquele dia, por razões de foro íntimo (e não particular – não, eu não arrumei um “affair” por aqui), resolvi me embriagar. Justo naquela quinta-feira, Valentine´s Day. Resolvi jantar fora, beber duas long necks e, consequentemente, me embriagar.
Fui ao restaurante vestindo minhas Levi´s nova e meu cinto paquitéeeeeeerrimo da Guess. Comi um Seafood Jambalaia regado á muuuuita cerveja: duas long necks. 'Presidente', a cerveza da Republica Dominicana, terra do meu bom amigo Pedro Veneno.
Depois de completamente embriagada, andando com alguma dificuldade - cambaleando! - eu entro no meu quarto, desesperado para fazer xixi. Entro toda atrapalhada, largo a bolsa em cima da cama, corro pro banheiro tirando o cinto e abaixando a Levi´s e, quando eu sento na privada, começo a fazer xixi... olho pro lado e... lá está a cortina da banheira... AZUL!
Meu Deus, o que colocaram na minha cerveza??? A cortina é AZUL.
Resolvo abrir a terceira long neck, prá ver se a cortina ficava bege de novo.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Você já imaginou que poderia... um dia...

Pôr-do-Sol visto do Mambo, em Curaçao

... conhecer uma ilha paradisíaca, num passeio de carro, ouvindo Tom Jobim?
... considerar GIGANTE uma ilha com 40 mil habitantes?
... se sentir "home sick" por causa de um lugar em que está vivendo há apenas 1 mês?
... falar com sua minha mãe pelo Skype e somente isto ser capaz de fazer uma 'caganeira' de 48 horas parar instantâneamente?
... morar toda semana em um hotel diferente?
... tomar banho de banheira todos os dias para relaxar e pensar muuuito na vida?
... viajar tanto que as pessoas sempre te perguntam: onde é mesmo que você está agora?
... sentir muita saudade de quem brigou muuuito com você?
... se espantar todos os dias com as galinhas andando no meio da rua?
... ver um pôr-do-sol mais lindo do que o outro, em cada lugar que visita?

Já imaginou o tamanho do silêncio que invade a sua alma e os seus pensamentos quando você está em uma lancha, enrolada em uma toalha úmida, sem nada por perto que não seja mar, céu de estrelas e mato?

Já imaginou que a solidão absoluta poderia ser sua melhor companhia?

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Comida é pasto

Era essa a vista que eu tinha de dentro do restaurante em que almocei no domingo passado...

Comer em BVI é bom, mas não pensem que é fácil. O primeiro obstáculo é, obviamente, o idioma. Meu inglês sucks em dois aspectos: números e comida. Números acima de 4 dígitos são um inferno: mil, milhão, hundreds, thousands, whatever. E comida, bom, eu sei o básico: chicken, meat, lamb, fish, salad, pasta ... e olhe lá. Agora não me venha com molho disso, molho daquilo, bem passado, mal passado, com isso, sem aquilo outro, pelo amor de Deus!!!
E os chamados “specials”??? Obviamente são o melhor que o restaurante pode oferecer, são mais caros, claro, mas não estão no cardápio – provavelmente porque mudam todos os dias – então, o garçom DESCREVE o prato prá você. Quando eles terminam, eu sequer consigo afirmar se é comida ou não, se eu ganhei um milhão de dólares ou se é apenas uma salada com camarões. Triste.
Outro ponto é o timing dos British Virgin Islanders para providenciar a sua comida. O ritmo é o mesmo da Bahia e o estado de espírio deve ser o mesmo: “Sorria, você está... em BVI”. Com fome, mas no Caribe, ok?
Ontem mesmo pela manhã tive que suspender o meu breakfast porque 40 minutos não foram suficientes para que meus ovos mexidos com bacon E torradas (duas, eu devo dizer), fossem preparados. Amazing!!!
Ainda ontem, durante o jantar, aguardei aproximadamente 15 minutos para que a minha Diet Coke me fosse trazida. Havia no restaurante eu e... mais uma pessoa.
Pois é, minha gente... como se diz por aí: rapadura é doce... MAS NÃO É MOLE NÃO!!!


P.S.: Dedico carinhosamente este post, por razões óbvias, à uma amiga muuuito especial, que anda precisando dar boas risadas. Força, Índia Veneno. Muitos beijos saudosos.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Pequena Veneno no Caribe - AGAIN!


Todos querem saber o que eu estou achando de BVI, como são as coisas aqui.
BVI é assim: o tempo muda de uma hora para a outra e à noite venta gelado; galinhas por toda parte - isso é o que mais me fascina, não consigo trombar com uma galinha no meio da rua e não sorrir!!! - o céu é lindo mesmo quando está cheio de nuvens (quase sempre!); tem uma "feirinha hippie" perto de onde os turistas descem dos cruzeiros; falo Inglês 100% do tempo, o que está me enlouquecendo um pouco; os prédios e casas são coloridos.
Aqui eles vendem cerveja no mercado - em Cayman não podia; as "lujinhas" abrem aos domingos; o taxi é um absurdo de caro - ir para a praia pode custar facilmente USD 50.00.
As pessoas são muito gentis e todo mundo me pergunta se estou viajando sozinha - e ficam chocadas quando eu digo que sim! Ficam estarrecidas quando eu digo que sou ADVOGADA!!!
As praias são lindas de morrer mas não são calmas como em Cayman - eu adorava aquelas piscinas salgadas!!!!
É isso. Tô aqui, pronta prá uma nova vida de solidão e recolhimento - o quanto possível - nos dois meses em que viverei aqui, como uma autêntica British Virgin Islander - muito mais British do que Virgin, of course!
Assim, o Mulheres Veneno, mais ula-ula do que nunca, trará nos próximos meses, somente notícias caribenhas... ou não. Afinal, o Brasil está no coração.